por 1Aline Marques Martins
Em seu livro intitulado Princípios Para Lidar Com Uma Ordem Mundial Em Constante Transformação: Por Que Nações Triunfam ou Fracassam (Principles for Dealing With The Changing World Order: Why Nations Succeed Or Fail), o autor Raymond Thomas Dalio, mais conhecido como Ray Dalio, se debruça sobre os processos de ascensão e queda dos maiores impérios dos últimos quinhentos anos – indo desde o Império Holandês, passando pelo Império Britânico até chegar à Pax Americana – em uma investigação das razões por trás do processo de transição do eixo de poder político no cenário mundial e dos fatores cíclicos inerentes ao processo.
O presente artigo apresenta ao leitor e estudioso do assunto uma breve introdução aos conceitos-chave contidos na obra, a fim de facilitar o entendimento do que Dalio denomina de Grandes Ciclos da Ordem Mundial, um processo, segundo o autor, inevitável na história da humanidade, uma vez que ele seria indissociável da formação de um império – seja ele sustentado pela força militar ou econômica – e que permite antecipar, com certo grau de previsibilidade, os fatores que levam – e levaram – à ascensão e derrocada dos maiores impérios e potências mundiais.
Para explicar os Grandes Ciclos, Ray Dalio realizou um estudo do comportamento das políticas monetária e creditícia de cada império, estudo do qual ele deriva o seu primeiro princípio: o de que, em dado momento, todo império entraria em um grande ciclo de endividamento, cuja duração é estimada entre cinquenta anos e um século, fator que seria responsável pelo começo de sua derrocada.
Para compreender a lógica por trás de longos períodos de crescimento econômico de uma nação, o autor estudou mais de vinte economias mundiais que apresentaram uma década de crescimento contínuo do PIB, apontando fatores como o investimento em educação e tecnologia como causa direta da trajetória de ascensão econômica. E para compreender o fenômeno do populismo – e aqui, Ray Dalio traça um paralelo entre o período de 1930 a 1945 e o recente período político em que os Estados Unidos se encontravam em 2016, com a ascensão de Trump como liderança política -, o autor se debruça sobre um estudo do contexto sócio-econômico, estabelecendo uma relação direta entre o endividamento estatal e o crescente distanciamento entre as classes sociais, cuja consequência natural, argumenta o autor, seria o surgimento do populismo entre lideranças políticas e sua adesão pelas classes menos favorecidas da sociedade.
Através de sua pesquisa, o autor chega a conclusões sobre a natureza da ascensão e queda dos impérios, resumindo seus achados em um conjunto de fatores denominados Princípios, que se repetem ad infinitum na criação e destruição de cada Ordem Mundial.
O GRANDE CICLO
Segundo Dalio, no início dos anos 2000, os Estados Unidos estavam passando por um período de derrocada. Ou seja, o país já se encontrava no estágio final de um grande ciclo. As evidências consistiam em uma confluência de fatores, dentre eles: o alto nível de endividamento dos EUA, acompanhado de baixas taxas de juros, algumas no patamar de zero porcento, o que, segundo a teoria econômica, compromete a capacidade de um Banco Central de criar estímulos aos investidores e inibe a retomada do crescimento econômico; aumento da disparidade entre as classes sociais, acompanhada do acirramento das rivalidades políticas nos EUA; a ascensão recente da China como nova potência mundial, fator que compromete a estabilidade da presente ordem mundial, capaz de conduzir a um novo conflito de escala global. Dalio ainda traça um paralelo entre o período analisado da nação americana e o período histórico de 1930 a 1945, argumentando existir perturbadoras semelhanças entre os dois períodos. Segundo o autor, tal confluência de fatores pode ser comumente observada em fases de transição – com duração média de uma a duas décadas – entre grandes ciclos político-econômicos, que costumavam durar entre cinquenta anos a um século, ciclos estes compostos de três fases: ascensão (período de crescimento econômico e prosperidade), pináculo (plena empregabilidade dos fatores de produção e moeda valorizada nos mercados mundiais) e queda (derrocada financeira, endividamento e desvalorização da moeda nacional).
FENÔMENOS PRECIPITADORES DO CICLO
Ao lançar um olhar analítico sobre a economia norte-americana, Ray Dalio enumera três fatores determinantes de uma economia que, segundo o autor, são indicativos da fase do grande ciclo em que uma nação se encontra.
A seguir, vamos aos referidos fatores:
O Grau De Endividamento Nacional E O Status Da Moeda Como Reserva De Valor
O primeiro fator a ser observado é o grau de endividamento de uma nação. Quanto mais elevado, maior o risco da moeda nacional entrar em um ciclo de desvalorização, levando à sua perda como reserva de valor e comprometendo seu status como principal meio de troca nos mercados internacionais. Ray Dalio analisa o caso da economia dos EUA de 2020 em diante como exemplo, período em que a dívida americana chegou à casa dos 10 trilhões de dólares. Apesar do Federal Reserve, banco central americano, ter negativado suas taxas de juros, a medida não foi suficiente para estimular a retomada do crescimento econômico, nem para diminuir o grau de endividamento do país. O fracasso da política monetária levou o autor a estudar outras economias ao longo da História que passaram pela mesma crise e a conclusão de seus estudos apontava para o colapso da economia em questão e a progressiva substituição da moeda do império em derrocada pela do império em ascensão. Ray Dalio deriva desta análise o seu primeiro princípio: o de que a contínua utilização de uma moeda considerada reserva de valor nas transações internacionais está intrinsecamente ligada ao grau de endividamento do seu país de origem, e conclui, portanto, que, no ciclo atual, cada vez mais o mundo substituirá o dólar em suas transações pelo Yuan, atual moeda do país identificado pelos mercados globais como sendo o próximo império em ascensão: a China.
A Economia Doméstica E A Distribuição De Renda
Ao estudar períodos históricos, como a década de 1930, Ray Dalio argumenta que a polarização política pode impactar significativamente economias e mercados. Quando há grandes lacunas de riqueza e valores, especialmente durante uma recessão econômica, é comum haver conflitos sobre a divisão de recursos, levando a uma distribuição de renda mais desigual e ao acirramento da crise política interna. O autor deriva, portanto, um princípio importante da relação entre esses dois fatores: o de que a distribuição desigual de renda e a polarização política são sintomas de que um império se encontra no fim de um grande ciclo.
A Ascensão De Um Novo Poderio Econômico
Em uma análise comparativa, Ray Dalio estabelece que um novo poderio emergente – a China – desafia a predominância dos EUA como poder e influência econômicos vigente, com a competição tornando-se acirrada nas áreas de comércio exterior, desenvolvimento tecnológico, geopolítica e até mesmo na área cultural e acadêmica, com movimentos chineses dando gênese a novas ideologias de cunho político, social e até mesmo econômico, confirmando que a substituição de um império por outro irradia sob a forma de uma nova influência cultural, que rapidamente se dissemina pelo mundo.
CONCLUSÕES
Munido de suas observações, Ray Dalio conclui a primeira parte de sua investigação científica identificando os três principais constituintes dos Grandes Ciclos da Ordem Mundial, e corrobora suas observações através da comparação da evolução dos três fatores no ciclo atual com a sua evolução nos ciclos de três períodos históricos distintos: o de 1929 a 1932, o de 1930 a 1945 e o de 2008 a 2009.
Nos quatro períodos citados, houve a confluência dos mesmos fatores: as potências de cada período se encontravam em uma fase de alto grau de endividamento, imersas em uma crise econômica e financeira. Numa tentativa de salvar suas economias do colapso, as autoridades monetárias haviam reduzido as taxas de juros básicas para zero. Além da medida, as autoridades ainda se utilizaram da impressão de moeda em espécie para adquirir ativos financeiros, provocando uma inflação nos mercados e aprofundando a desigualdade de renda.
Com as diferenças sociais se acirrando, uma crise política interna se instaurou com a ascensão de movimentos de cunho populista, com a rivalidade ideológica entre os defensores do sistema nos moldes capitalistas e aqueles que desejavam a migração para um modelo socialista.
Com a crise interna se aprofundando, potências emergentes desafiavam o poderio político-econômico vigente – Alemanha e Japão em 1930 e China em 2008 -, processo que ganhou momentum após a pandemia do Covid em 2020, com a crise se estendendo a um segundo poderio do cenário atual – a União Europeia -, tendo em vista que o seu protagonismo continua sendo desafiado pela guerra na Ucrânia, território disputado pela Rússia, um poderio emergente que, historicamente, do séc. XX em diante, rivalizou com os EUA e as principais potências europeias poder e influência no cenário mundial.
O presente cenário mundial que se descortina, no qual testemunhamos a derrocada da Pax Americana e a ascensão do poderio chinês, evidencia a atualidade do estudo de Ray Dalio sobre os fatores determinantes dos ciclos de ascensão e queda de impérios e nações, com o objetivo de trazer uma interpretação verossímil e uma maior compreensão de uma Ordem Mundial em constante transformação.

[1] Aline Marques Martins é Mestre em Ciência Política, com ênfase em Economia Política Internacional. Pesquisadora, professora e tradutora de inglês e francês, atuou como colaboradora da Liga da Defesa Nacional – Diretoria Estadual do Rio de Janeiro (LDN/RJ) em diversos projetos desenvolvidos entre 2022 e 2024, além de ter exercido a função de assessora de campanha nas eleições de 2024. É professora de Metodologia da Pesquisa no Instituto Latino-Americano de Educação (ILAE) e atua também como designer de mídia digital, com experiência na criação de conteúdos e materiais para redes sociais.

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